A ilusão é uma confusão dos sentidos que provoca uma distorção da percepção. A ilusão pode ser causada por razões naturais (mudança de ambiente, deformação do ambiente, mudança de clima, etc) ou artificiais (camuflagem, mimetismo, efeitos sonoros, ilusionismo entre outros). Todos os sentidos podem ser confundidos por ilusões, mas as visuais são mais conhecidas. Uma vez que a percepção é baseada na interpretação dos sentidos, as pessoas podem experimentar ilusões de formas diferentes.

Um fantasma é, em seu sentido original, uma imagem não correspondente à realidade, ou seja, uma ilusão visual, produto da fantasia. Por extensão, o termo designa espíritos de pessoas que supostamente permaneceria na Terra depois de sua morte. Cada cultura no mundo contém histórias sobre fantasmas, mas as crenças divergem substancialmente de acordo com o período e local, muitas vezes discordando sobre o que são fantasmas e se realmente eles existem.

Sempre gostei de futebol e como toda criança eu também sonhava em ser jogador profissional. Até o momento em que conheci o skate e ele revolucionou minha vida. Viajei para vários lugares e fiz várias amizades através do skate.

Uma delas foi o Monteiro. Cara tranqüilo e humilde e como todo jovem sonhador às vezes ele se iludia em sua própria realidade. Morador da periferia de Franca onde morava numa casa tranqüila com seus pais e duas irmãs.

Os picos de skate sempre eram o ponto de encontro da rapaziada e conforme as afinidades a amizade se criava através do skate. Sempre depois da sessãobroken skate era de praxe aquele refrigerante de dois litros do mais barato com aquele pacote de biscoitos na praça mais próxima ou na frente do posto de gasolina. Formava-se a roda e sentados no skate já cansados depois de um dia de manobras satisfatório, dávamos risadas de nós mesmos combinando a saída de logo mais a noite.

Monteiro sempre chegava junto, se deslocava de longe para estar com os amigos, quando alguém não tinha dinheiro sempre rolava aquela vaquinha para o irmão sempre chegar junto na noite. Lembro-me das incontáveis noites em que nós comprávamos uma garrafa de vinho, apenas eu e o Monteiro. Nas noites frias de Franca sentávamos num banco de praça, sempre com uma bebida, falávamos sobre os mais diversos assuntos, mas principalmente sobre os conflitos que tínhamos com a realidade que víamos no dia-a-dia.

Na frente da casa do Monteiro tinha uma lanchonete onde ele e seus pais trabalhavam para garantir o ganha pão da família. Com o tempo sua mãe comprou uma moto usada para ajudar na entrega dos lanches e Monteiro ficava nessa função. Nas sessões de skate ele já chegava de moto e até viajava para cidades vizinhas para andar de skate em outras pistas.

Ele sempre vinha em casa para trocar uma idéia e às vezes, quando rolava um stress em sua residência ele dormia lá. Falava-me das dificuldades que passava e de sua visão fantasiosa sobre a realidade da sociedade sempre questionando as diferenças e desigualdades sociais. Era meu amigo e todos o consideravam, fosse pela sua pessoa de personalidade humilde ou pelo seu skate de manobras variadas e com muito estilo. Enfim uma pessoa do bem.

Com a minha mudança para o Rio de Janeiro fiquei distante dos amigos fisicamente, mas em pensamento estavam todos presentes. Mantive contato com eles através de e-mail ou telefonemas entusiasmados falando da mudança para um lugar novo e desconhecido. Meu único vínculo de amizade era em forma de pensamentos com as lembranças dos momentos em que passava junto com os amigos na sessão de skate.

Um dos poucos que não tive mais contato foi Monteiro. Depois de dois anos longe de Franca, voltei para fazer uma visita aos amigos. Fiquei surpreso quando me contaram que a mãe do Monteiro viera a falecer e por isso ele saiu de casa, virou andarilho e começara a usar drogas pesadas, vivendo de pequenos furtos e vagando pelas ruas cegas de Franca. Fiquei chocado não esperava isso dele.

O skate que sempre nos trouxe algo de positivo na maneira de pensar e agir nas mais diversas situações, não influenciou nessa decadência de um amigo querido. Depois dessa notícia percebi que uma mente desequilibrada por causa de uma tragédia pode facilmente sucumbir aos males da vida num piscar de olhos. Apenas desejei que onde quer que Monteiro esteja que fique em paz de espírito.

Seis anos se passaram e me falaram que Monteiro nunca mais foi visto. Disseram-me, com palavras carregadas de tristeza, que assassinaram Monteiro por causa de uma dívida de drogas não paga, mas não tinham certeza absoluta do fato, sabiam apenas que ele nunca mais foi visto. Nesse momento lamentei sobre o comentário do final trágico que um amigo querido levou.

Num certo sábado, saio do prédio onde trabalho no centro do Rio, por volta das sete horas da noite para comer alguma coisa. Vou a uma lanchonete que fica na esquina comprar um salgado e passo numa barraca de camelo para comprar um refresco.

Ouço uma voz masculina com uma tonalidade arrastada por trás de mim pedindo um dinheiro. E quando me viro e olho para o pedinte fico surpreso e ao mesmo tempo espantado com a visão, era o Monteiro. Percebo nele um olhar vago e um tom de voz diferente. Ele estava descalço vestindo uma camisa suja e uma calça jeans com a barra dobrada até o joelho, com uma mochila nas costas e segurando uma sacola com latas de alumínio. Cumprimento ele e digo que estou surpreso em vê-lo e percebo em sua expressão que ele também estava surpreso tanto quanto eu.

Nosso diálogo foi vago e curto. Questionei sobre o que estava fazendo aqui no Rio e ele com uma voz triste apenas me pedia um Real. Perguntei se ele estava com fome ou sede para eu poder lhe comprar alguma coisa, mas com uma expressão de quem havia perdido sua alma numa caminhada de amargura sem fim, ele apenas me pedia um trocado. Dei-lhe o dinheiro não me importando pelo destino final, fosse para ele comprar algo para comer ou alguma droga para usar, meu único sentimento momentâneo foi ter um mínimo de compaixão com um velho amigo. Ele me agradeceu e falou que nos encontraríamos por aí. Deu-me as costas e saiu andando, provavelmente sem destino certo.

Fiquei abalado com tão incrível coincidência. Perguntava-me que como depois de seis anos sem vê-lo o encontraria naquela situação e justo aqui perdido no Rio. Parecia algo já escrito pelo destino. Fiquei mais surpreso ainda pela sua atitude de frieza em relação a seu tratamento comigo, um amigo de longa data.

Liguei para um amigo de Franca para lhe contar o ocorrido. Ele tanto quanto eu se mostrou surpreso e espantado com o encontro e pelo fato do Monteiro estar por essas bandas de cá, mas ficou tranqüilo em saber que o boato de que ele tinha morrido era falso. “Tenho a impressão de que tive uma ilusão ou vi a imagem de um fantasma, mas ele estava vivo fisicamente, – respiro fundo e com palavras tristes completo – mas de alma infelizmente não tenho tanto essa certeza”, fizemos um minuto de silêncio e encerramos a ligação.

Jonas Candido

Setembro/2008

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