rancho da vaca

Saímos de Ribeirão Preto, eu e meu amigo de longa data o Tiago, rumo a um rancho que fica nos arredores de Araraquara, interior de São Paulo.

Primeira e última vez que venho ao rancho.

Um rancho que é de um dos tios do Tiago, não sei de qual tio, pois ele tem vários, fomos com a intenção de relaxar a mente num lugar tranqüilo onde só se ouve a melodia dos pássaros e o movimento contínuo das folhas das árvores o que traz uma sensação de paz e tranqüilidade ao espírito. O que uma cidade cheia de concreto, asfalto e buzinas não oferece.

No rancho tem uma casinha de três cômodos. Um banheiro sem azulejo e de chão vermelho, uma cozinha com uma grande janela para frente do rio com uma proteção de tela para evitar a entrada de mosquitos na noite. Porém com vários furos o que não evita a entrada das sanguessugas voadoras e um pequeno quarto com meia dúzia de colchões que pela aparência parece que estão ali a algumas gerações. E lá fora uma rede de balanço encardida pendurada na entrada da casa.

Chegamos numa sexta-feira por volta de cinco horas da tarde. Deixei minha mochila com apenas duas mudas de roupas e fui contemplar o rio que passa encostado ao rancho. Um rio de água turva e largo onde a correnteza é forte como um tufão, do outro lado apenas uma densa mata com vários tipos de árvores que exalam o mais puro oxigênio. Meu pulmão acostumado com a fumaça de carro agradece.

Logo escurece, pouca iluminação nas redondezas o que dá um clima sombrio ao lugar. Vizinhos são distantes e a civilização mais perto fica a uns dez quilômetros daqui. Logo me lembro de algumas histórias macabras, contadas pelo tio do Tiago, que rondam por essas bandas, mas que para mim não passam de lendas.

Saio eu e o Tiago com uma lanterna de luz fraca para achar e recolher um pouco de merda seca que as vacas deixam ao longo da estrada. Os jagunços da roça dizem que quando se põe fogo nessa merda ela provoca uma fumaça inodora que espanta os mosquitos à noite, vai ser a nossa salvação pois os mosquitos estavam atacando nossa pele acostumada com ar condicionado e sabonete neutro, um banquete para eles.

Estamos caminhando em meio à estrada de terra esburacada, coletando a tal da merda quando vejo, numa casinha de pintura azul desbotado, uma linda garota penteando seus longos cabelos negros á luz do luar com um radiante vestido branco que vai até a altura dos joelhos. Um olhar angelical onde seus olhos parecem duas jabuticabas das mais doces e chego à conclusão de que realmente existe amor a primeira vista. Comento com meu amigo a beleza inigualável daquela garota e ele, como um típico garoto da cidade, diz que é bonitinha, mas não passa de um roceira, ignoro seu comentário observo mais um pouco sua beleza e seguimos de volta ao rancho.

Não a tirei da cabeça o resto da noite. Em volta da fogueira e ao som de Tião Carrero e Pardinho, fiquei pensando naquele rostinho angelical de quem parece que saiu dos melhores sonhos já sonhados.

No dia seguinte me fixei na missão de que teria que conhecê-la. No começo da tarde passei sozinho pela porta da casa dela, mas nada vi. Eu ficava imaginando como poderia existir uma menina tão formosa escondida no meio desse pedaço de paraíso envolto de mato.

Chega a noite e lá vamos eu e o Tiago atrás da tal merda. Vou guiando a caminhada com intuito de chegar a casa dela. Chegando lá meu peito pula quando tenho a visão do paraíso em forma de mulher. Segurando um saco cheio de merda seca de vaca falo um olá para ela, mas sou ignorado de forma fria, na tentativa de mais um oi ela entra repentinamente dentro de sua humilde e desbotada casa.

Voltamos para o rancho. Eu frustrado por ter ficado tão perto de tão bela garota e não ter tido o prazer de saber seu nome nem ao menos ouvir sua voz. No dia seguinte seria o último que ficaríamos no rancho e eu não poderia ir embora sem antes conhecê-la.

Quando amanhece sigo pela estrada a caminho de sua casa. Ia inventar uma desculpa qualquer para poder me aproximar dela. Chego lá e chamo, grito quase me esgoelo, mas nada, ninguém na casa.

Volto pela estrada frustrado, mas logo vejo uma carroça puxada por um cavalo magro e um senhor guiando vindo em minha direção. Vejo a possibilidade de conhecê-la, pois um morador local conhece todo mundo das redondezas e iria perguntá-lo sobre a linda garota da casinha azul desbotado.

Um senhor de pele enrugada e mãos grossas com um olhar cansado devido aos longos anos de trabalho na roça. Logo o paro e lhe pergunto:

– Mora alguém naquela casa azul, pois fui lá e não encontrei ninguém?

– Não moço, já faz algum tempo que não tem ninguém lá.

Engulo seco, mas certo de que vi alguém lá, o Tiago também viu e logo contesto:

– O senhor tem certeza? Mas eu vi uma linda moça lá noite passada.

– Não moço, não mora ninguém lá. A família que morava lá se mudou faz tempo. Dizem que em noite de lua cheia aparece uma menina na casa, eu ouvindo atentamente assustado, mas essa menina morreu faz uns quinze anos.

Primeira e última vez que venho ao rancho.

JC

Agosto/2008

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