Elias é morador do subúrbio carioca, humilde e tranqüilo um rapaz alto e magro, mas muito inteligente para seus dezenove anos. Parou de estudar cedo, não chegou a completar o ensino médio, mas sempre estava com um livro em mãos dos mais variados conteúdos. Sempre disposto a conversar sobre assuntos interessantes que adicionam algo a pessoa, apesar das dificuldades que passava por falta de dinheiro nunca demonstrava tristeza. Não ligava para o consumismo, usava roupas surradas que muitas vezes eram doadas por amigos, que o considerava único pelo seu espírito alegre e singular. As vezes gostava de fumar um baseado com a rapaziada para relaxar e ficar introspectivo.

Numa tarde de Março um dos amigos de Elias, o Bola, foi chamá-lo para ir a sua casa, que fica a poucas quadras de sua residência. Foram na intenção de papear e ouvir um som do Radiohead.

Chegando ao começo da vila onde Bola mora, que se inicia por um corredor de quase dois metros de largura, viram um senhor calvo de quase sessenta anos vestindo uma camisa listrada com os botões abertos caído no chão. Bola comenta que já o conhece de vista e que esse senhor costuma ficar no boteco da esquina bebendo e supõe que o senhor estava caído porque estava embriagado. Elias observa de mais perto e tem a percepção de que o senhor não estava bêbado, pois estava com a respiração ofegante e com as mãos pressionadas sobre o peito tendo dificuldade para esboçar alguma palavra, e parecia estar pedindo alguma ajuda.

Elias, que se viu num momento de empatia, tenta ajudar aquele senhor e pede para Bola contatar a emergência o mais rápido possível. Sentindo o momento de agonia interminável que o senhor desconhecido passava, Elias massageava seu peito deduzindo que o sofrimento do senhor estava sendo causado por um começo de ataque cardíaco.

Elias e Bola se viam num momento agonizante vendo o sofrimento daquele senhor a cada minuto que passava com a demora da ambulância. Elias ficava pensando naquele senhor desconhecido e sentia seu sofrimento por estar ali sozinho achando que sua presença naquela hora não era por acaso. Era o destino lhe falando para ajudar aquela alma que sofria naquele momento peculiar.

A chegada da ambulância traz tranqüilidade para Elias e Bola. O barulho das sirenes anuncia que alguém esta mal e com isso a chegada dos curiosos é inevitável. Todos olhando espantados e comentando o ocorrido com a pessoa do lado, pensando consigo mesmos que aquela cena apenas acontece com o vizinho e nunca vai acontecer com eles.

O paramédico presta os primeiros socorros e fala para Elias que o senhor precisa ser levado ao hospital o mais rápido possível, porém o questiona de quem vai acompanhá-lo já que nenhum parente ou conhecido apareceu. Elias olhou para os lados na esperança de encontrar algum parente, algum conhecido, mas nada. Prontificou-se para acompanhar o senhor na ambulância a caminho do hospital. O que seria apenas uma tarde de fumaça e conversa com Bola agora se torna uma missão para salvar uma vida.

Chegando ao hospital, a fila de espera é enorme, macas com doentes estão espalhadas pelos corredores, mas o senhor é imediatamente levado para uma sala onde ocorrem atendimentos de emergência.

Elias espera. Num momento de reflexão ele ficou imaginando se não estivesse aparecido naquele momento em que o senhor estava agonizando, o que seria dele, com certeza o pior iria acontecer.

Passaram duas horas e o médico aparece, chama Elias e lhe diz que o estado do senhor é estável. Elias pergunta se encontraram algum parente e se poderia ir embora, o médico fala que conseguiram o contato de alguém e que esse alguém já estava a caminho. Elias se sente mais confortável com a notícia e com a chegada de alguém conhecido e decide ir embora. Porém o hospital fica longe de sua casa e está sem dinheiro o jeito é pedir uma carona para o motorista do ônibus, o chamado calote.

Depois de alguns meses do fato.

Elias começou a freqüentar uma academia de ginástica para fazer fisioterapia devido a uma cirurgia que sofrera no joelho esquerdo. Fez essa cirurgia graças a um amigo que lhe emprestou a carteira do plano de saúde e Elias se fez passar por ele para fazer o tratamento. Ninguém desconfiou de nada.

Na academia Elias conheceu Móca, um rapaz de vinte e poucos anos, de boa fala e culto, porém estava acima do peso e por isso começou a malhar. Elias e Móca fizeram amizade por causa da compatibilidade das idéias. No decorrer dos dias na academia fortaleceram a amizade e sempre queimavam um beck quando saiam. Conversavam sobre assuntos diversos, principalmente sobre música e livros, que era paixão de ambos. Frequentava um a casa do outro e ficavam filosofando sobre os conflitos e atitudes contemporâneos das pessoas e do mundo.

Numa noite de quinta para sexta-feira, Móca estava de saída da casa de Elias: “Coé Móca você tem um livro maneiro pra empresta pru irmão?”- perguntou Elias. “Tenho sim, tem um que é muita viajem, é um livro de Voltaire que se chama Zadig ou La Destinée.”- responde Móca “esse livro fala sobre um jovem chamado Zadig muito inteligente e sábio para sua época, mas que passa por várias armadilhas do destino até ele aprender o porquê dessas armadilhas e que o destino lhe reservava um futuro de conquistas”. Elias acha o livro legal, pede emprestado e por causa do título se lembra do que aconteceu meses atrás com o senhor que ajudou.

Elias começou a contar a história do senhor desconhecido que ajudou a levar para o hospital alguns meses atrás e comparou com o titulo do livro, que se não fosse o destino não se sabe o que seria do senhor. Elias detalhava os momentos da história para Móca e conforme ia contando o fato, Móca começou a ficar tremulo e surpreso. Uma mistura de espanto e curiosidade ia tomando conta de Móca.

“Mas Elias, como era esse senhor?”- pergunta Móca. “Ele era calvo e aparentava sessenta anos e tava com uma camisa listrada de botão.” – fala Elias. Móca fica pálido e interrompe Elias: “Para que hospital ele foi levado?” “Ele foi levado para o hospital daqui do bairro e falaram que iria chegar um parente dele e com isso fui embora”.

Começam a cair lágrimas do olho de Móca. “Mas o que foi Móca?”- pergunta Elias preocupado – “Esse senhor que você ajudou era meu pai, e a pessoa que estava indo ao hospital era eu”- fala Móca com palavras tristes sobre o que aconteceu – “e ele ficou bem?” questiona Elias, – “chegando ao hospital fiquei sabendo que um rapaz tinha ajudado meu pai, fiquei com ele aquele noite, mas era a sua última noite vivo, uma noite de quinta para sexta-feira”.

Os dois se abraçaram muito emocionados e Elias lamentou o que aconteceu com o pai de Móca e ficaram surpresos com mais uma demonstração do acaso, do destino, de vidas.

Jonas Candido / Outubro 2008

Conto dedicado a Elimar “Engraçado”

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