Antes de dormir já estava tudo planejado para o dia posterior, mas sabe quando você planeja e nada daquilo acontece, esse foi um desses dias.

             Acordei, fui trabalhar, e até aí nada de novo. Depois do expediente é quando tudo começa.

             Tinha combinado com minha mina, depois do trabalho, de encontrá-la no shopping com sua prima e também combinei com um amigo para ele conhecer a prima e assim unir o útil ao agradável, um típico caso de cupido, o rotineiro passeio de casal.

             Tudo combinado, marcado e estipulado. Depois de um suculhoso Yakisoba que almocei com minha doce namorada, saímos do trabalho e decidimos pegar o metrô. Estávamos em tanta sintonia, entre beijos, abraços e palavras ao pé do ouvido, que quando vimos, já tínhamos passado de duas estações na qual iríamos descer. O atraso para o encontro seria inevitável.

             Quando chegamos às pessoas estavam esperando como combinado, a prima e meu amigo, a apresentação foi de praxe e o passeio com vistas para as vitrines apelando para o consumismo vazio também. Enfim, quem tem compra, quem não tem apenas passeia e não cai na armadilha do capitalismo selvagem.

             Passeio pra cá, bate perna pra lá, a chuva não perdoando lá fora e os dois, prima e amigo, de role trocando saliva de canto. A hora passando e o meu plano e da minha mina indo por chuva, quer dizer, por água abaixo, por causa do descobrimento labial dos dois.

             Desiludidos pela provável quebra de plano, pois a intenção era de fazer um role só nosso, decidimos ir cada um para sua casa, infelizmente passar o restante da noite nos desejando, mas longe um do outro.

             Kombi vai, Kombi vem, e todas lotadas, já estou ficando puto, primeiro por causa de o plano ter morrido afogado na chuva e segundo por causa de um simples desejo não realizado que é o de pegar um transporte para chegar na minha humilde e solitária casa.

             Até que enfim uma Kombi, ela faz um caminho mais longo, mas sentado e indo pra casa. Essa tal de Kombi deveria se chamar ‘lata de sardinha’ e como exigência para embarcar, a aplicação de uma antitetânica. Em meio a passageiros, que não sabem o significado da palavra educação, jogando lixo pela janela, o piloto que mais parecia dirigir uma carroça com uma Mula perneta e com a unha encravada num trânsito infernal, recebo um telefonema da minha doce menina, me pedindo para ir buscá-la no ponto de ônibus.

             Noticia ótima, plano B? Pode ser, e lá vou eu para o ponto como se estivesse a esperar minha princesa na sua carruagem real. Quinze minutos e nada. Vinte minutos e nada. Meia hora e o sangue começando a correr mais rápido e nada. Quando ela chega, linda e cheirosa ao meu encontro. Pelo menos o final do planejado começa a se concluir.

             Estamos caminhando para minha casa em meio a uma conversa entrosada, atravessando a rua, quando dois sujeitos de cara feia e forçando uma expressão de pessoas más, fala o verbo, como se o fato já tivesse se consumado. – PERDEU! – fala um deles.

             Eu perco?

            Tu perdes;

            Ele perde;

            Nós perdemos;

            Vós perdeis;

            E eles, perdem?

             Este presente do indicativo está propondo que no presente a indicação é a de que perdi, mas quem perde? Eu, tu ou ele? Parece que somos nós, vós e eles que perdem.

             Passa tudo, é esse o significado do verbo perder na linguagem dos ignorantes de respeito ao próximo. Segurando algo que parecia uma arma por baixo da camisa larga, exigindo a entrega do celular e outras coisas de valor, mas na dúvida é melhor não duvidar.

           O verbo perder, conjugado na 3ª pessoa do pretérito perfeito, é pronunciado numa ignorância perfeita em uma situação onde o que menos importa é a gramática e sim o que se perde.

               Numa situação atípica, sem poder de reação, enquanto um puxava meu cordão e o outro a mochila, minha mina esboçava um desespero com suas coisas, seus pertences, sua história contada por objetos conquistados guardados naquela mochila, onde delinqüentes iriam tomar posse em questão de segundos.

              – O que ta acontecendo aí! – fala o motorista de uma Kombi, cheia de passageiros, no momento da ação.

                O punguista retrucou encarando o piloto da lotação, que nesse momento sai de sua Kombi que mais parecia um cavalo alado junto do seu cavaleiro medieval, empunhando sua espada, enviado por deuses, como num desenho em quadrinhos, pronto para despachar o vilão.

               Neste momento quando olho para a rua, tenho a impressão de ver uma fonte de água límpida na seca do mais quente verão do sertão nordestino. Uma miragem? Uma ilusão? Era o Gol bolinha da policia subindo a rua.

                  Entro no campo de visão da viatura e como um habilidoso mímico, aponto os ladrões que nesse momento saem correndo, cada um para um lado. Os policiais não entendendo nada ficam segundos parados digerindo o fato, mas parecia uma eternidade aos meus olhos. A viatura persegue um deles, entra na contramão, e como um fato encarado com naturalidade e corriqueiro de uma grande metrópole, os policiais começam a atirar com seus fuzis, do tamanho de uma criança de dez anos, para cima daquela alma que foge desesperadamente sem rumo.

                  Minha emotiva mina fica perguntando sobre suas coisas, sua bolsa, seus documentos, seu pouco tudo, mas não percebe que estou com sua mochila em baixo do meu braço, pois para um melhor engajamento em sua fuga, o ladrão larga sua mochila pesada, minimizando o prejuízo material.

                 Procuramos sair dali o mais rápido possível, movidos rapidamente pela adrenalina que corre nas veias, caminhamos em passos largos para casa sem querer saber do desfecho daquela cena digna de bang-bang holywoodiano.

               Chegando a casa, comentários inevitáveis sobre o fato e a recontagem do prejuízo selam a nossa noite. O que no começo do dia estava tudo planejado, no desfecho da noite estava tudo encerrado, de maneira jamais imaginada, e a única coisa que deu certo foi um abraço confortável e cúmplice com minha doce mina para fechar esse dia, apenas mais um dia onde questões ficaram sem respostas.

Eu perco?

E eles, perdem?

Jonas Cândido

Fevereiro/2009 

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