Parece que ás vezes a sorte conspira a nosso favor, escrevo isso me referindo a uma mulher ir atrás de um homem, mas este ‘ir atrás’ pode ser por várias circunstâncias e pode ter vários significados e conseqüências.

Um grande amigo meu, certa vez, contou-me um caso digno de roteiro de novela. Para eu que estava ouvindo já me surpreendi, fico imaginando para meu amigo, o Coruja, como deve ter sido digerir tal fato.

O Coruja é um cara tranqüilo e largado, com mais ou menos vinte anos de idade. Largado na maneira de se vestir e falar, sempre com seu estilo único e inconfundível, mas sempre prestativo e piadista, um excelente amigo, mas devagar em relação a ficar ou xavecar as minas. Quando surge aquela oportunidade de ouro para pegar a menina, ele sempre desperdiça contando a famosa história do Chico Bento, fica de lorota e não parte para a ação, desanimando as garotas provocando nelas intermináveis bocejos.

Hoje em dia, nos tempos de globalização, estamos interligados com o mundo todo através da internet, e fazer parte de um site de relacionamentos é essencial para a comunicação com conhecidos e tornar desconhecidos novos amigos. Para o Coruja foi uma mão na roda, pois as chances de conhecer uma mina aumentou e sua freqüência nesse site era regular. Quando você não faz parte de uma comunidade digital está quase que excluído da sociedade contemporânea mundial, enfim, o Coruja, como outros milhões, também faz parte dessa era.

Depois de uma sessão de skate divertida e cansativa, sentamos no banco de uma praça, para trocar uma idéia, quando, com a voz séria e com tom de desabafo ele começa a contar o ocorrido.

– Você não acredita o que aconteceu comigo.

– O que mano algo sério?

– Foi sério, seríssimo.

– Então fala porra. – eu já impaciente.

– Esses dias uma mina me adicionou no Orkut, até que ela é bonitinha, começamos a trocar uma idéia através de mensagens e percebi que ela é uma menina legal.

– Que milagre é esse mano, uma mina te dando moral.

– Então, fiquei cheio de esperança…

– Claro! Vários tempos na seca, têm que dar o bote logo. – o interrompo com uma risadinha no canto da boca.

– Não enche meu saco senão não conto o restante. – Ele fala meio bravo.

– Calma mano, os amigos são para essas coisas, para perturbar e para escutar também.

– Tá irmão, mas desta vez só escuta falo?

– Tá bom, tá bom.

– Então, ficamos trocando uns scraps por umas três semanas até que ela quis marcar um encontro comigo, fiquei com o pé atrás pela facilidade, mas parecia que a sorte estava a meu favor. Ela sugeriu na sorveteria em frente da praça 7 de Setembro, no meio da tarde, achei estranho, mas fui.

– E aí mano o que aconteceu? – falo cada vez mais curioso pelo desenrolar da história.

– Achei estranho porque eu fiquei com uma ansiedade fora do normal. Tomei um banho, coloquei um perfume, montei na moto e fui. Quando cheguei ela já estava me esperando.

– Ela é gata mano?

Coruja contou-me que ela tinha um cabelo na altura dos ombros, olhos bonitos, mas de beleza comum, nada que chame muita atenção porque suas roupas, apesar de arrumadinha, não era muito seu estilo, ela disse que tinha dezessete anos.

– Até que é bonitinha, mas não conseguia parar de olhar pra ela, pois lembrava a minha irmã mais velha, enfim, ficamos conversando sobre várias coisas, tomando um sorvete de pistache com chocolate, numa tarde agradável de sol no banco da praça.

– E aí Coruja, pegou ou não pegou?

– Calma mano, você não imagina o que aconteceu.

– O que mano? Desembucha logo.

Eu não sabia o estaria por vir, mas estava sentindo em seus dizeres que alguma revelação bombástica estaria a acontecer, pois o conhecia há mil anos e achei estranho o seu modo de contar tal história.

– Chegou a certa altura da conversa em que as palavras começaram a faltar, quando ela olhou pra mim e falou que tinha algo sério pra me contar. Falou que a intenção do encontro não era a de ficar comigo, fiquei puto na hora, mas depois…

Neste momento Coruja começa a olhar para o chão, meio que desolado com o que tinha ouvido daquela garota, fez uma pausa junto com uma lufada de ar que enchia seus pulmões, se preparando para explanar algo estarrecedor que aconteceu naquela tarde na praça.

– Porra! Para de enrolar e fala logo! – exclamo me coçando de curiosidade, mas não sabendo da grandeza do fato que estaria por vir.

– Disse-me que estava me procurando no Orkut fazia um tempo e quando achou decidiu, junto com sua mãe revelar tudo, ela apontou para um banco que estava atrás da gente com uma senhora sentada, que no momento tava olhando pra gente, e sem cerimônia, objetiva e direta falou:

– Aquela sentada ali é minha mãe, e eu sou sua irmã. – disse ela, aparentando um certo nervosismo.

– Mano, aquela hora o chão desapareceu e o mundo desabou na minha cabeça, fiquei muito confuso e não entendendo ou não querendo entender, meus pensamentos ficaram a milhão, mas no primeiro momento fiquei desconfiado até que o que ela ia dizendo fazia coerência.

Fiquei imaginando a cena e me coloquei em seu lugar, surgindo várias perguntas na minha cabeça.

– Mas e aí Coruja o que aconteceu?

– Pedi um minuto pra saber se aquilo estava acontecendo mesmo, e ela continuou falando, falou de meu pai com riqueza nos detalhes que não tive mais duvidas e decidiu junto com a mãe dela em me procurar para esclarecer esse assunto, me conhecer, e evitar um possível encontro por aí sem nos conhecer.

– Vai que vocês se encontram na balada e ficam, sem saber que eram irmãos.

– É foi essa a uma das intenções do encontro. Fiquei pensando no meu pai, como ele pode ter ocultado isso de mim esse tempo todo, e minha mãe enganada esses anos todos. Agora matei a charada do porque que ela parece com minha irmã.

Coruja engole seco e ao mesmo tempo aliviado por estar contando este segredo para alguém.

– Que foda mano, mas e seu pai você falou com ele?

– Claro, depois do encontro com ela saí de lá e fui para um lugar vazio onde não tinha ninguém, para digerir e refletir sobre essa parada. Depois procurei meu pai, claro que eu estava nervoso, por saber dessa história pela boca que não era a dele, e pela minha mãe, enganada todo esse tempo.

– E como foi a conversa com ele mano? Você falou com sua mãe também? – pergunto mais espantado do que curioso.

– Cheguei a casa ele não estava, fiquei matutando o que ia lhe dizer, mas na hora eu vomitei todas as palavras que tinha escutado daquela garota e ele espantado começou a argumentar comigo chamando minha mãe para participar.

– E qual foi a reação da sua mãe?

– Por incrível que pareça e para meu espanto, ela já sabia de tudo e fazia tempo. Explicou-me que na época meu pai lhe confessou que tinha cometido esse deslize fora do casamento e o perdoou, mas questionei o porquê que eu não sabia disso, pois eu estava me sentindo enganado e excluído sobre uma informação que envolvia meus pais e consequentemente eu e minha irmã. Falaram que para me preservar, não sei do que, decidiram não me contar, mas agora está tudo desvelado.

Eu não sabia o que falar, muito menos aconselhar meu amigo que se encontrava num momento de revelação e confiando seu segredo para mim, eu apenas falei que a vida continua e que isso só vai ser uma influencia em sua vida se ele deixar.

– E agora Coruja qual vai ser? – pergunto.

– Deixa rolar mano, mas nem vou atrás, não quero saber, prefiro fingir que nada disso aconteceu.

– É mano, mas vai ser mais uma na lista das que você não pegou. – falo em tom de brincadeira.

– Ah vai se fuder e vamos anda de skate, porra.

– Demoro.

Depois desse dia, Coruja ficou um ano sem acessar o Orkut.

JONAS CANDIDO

ABRIL/2009

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